2026-10-02 11:37:53.0
E-book gratuito reúne textos sobre discurso de ódio
Obra é resultado de trabalho coletivo de participantes de atividade de extensão da UFSCar
Foi publicado um e-book gratuito que reúne 26 textos de diferentes pessoas autoras que participaram da Aciepe "Análise de discurso, ensino e discursos de ódio: resistência, ressignificação e revascularização discursiva". Como construção coletiva, a obra traz diferentes recortes temáticos como gênero, raça, sustentabilidade e comunicação. O trabalho foi organizado por Lauro Damasceno, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) e bolsista Capes, e Roberto Leiser Baronas, professor do Departamento de Letras (DL), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O livro homônimo reúne propostas didáticas para se trabalhar a temática dos discursos de ódio em sala de aula e está disponível em versão digital no site da Editora Letraria (https://www.letraria.net/analise-de-discurso-ensino-e-discursos-de-odio). Também é possível adquirir em versão impressa, sob demanda. O material é destinado a profissionais e inexperientes que se interessam pela Análise do Discurso, pela temática do discurso de ódio e/ou sobre estratégias didáticas possíveis para se abordar temas sensíveis em sala de aula. "Cada capítulo mantém uma relação de autonomia com os demais, de modo que a leitura de um deles, que se debruça sobre um de terminado tema, não pressupõe nem implica na leitura de outro", completa Damasceno.
O que é discurso de ódio?
A dupla de organizadores trabalha com um conceito de discurso de ódio preconizado no relatório (https://bit.ly/4jC81ul) fruto do trabalho coletivo realizado pelo Grupo de Trabalho, proposto pelo então Ministro de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) do Brasil, Silvio Luiz de Almeida, intitulado "Grupo de Trabalho para apresentação de estratégias de combate ao discurso de ódio e ao extremismo, e para a proposição de políticas públicas em direitos humanos sobre o tema". O grupo publicou o conceito no relatório disponibilizado em julho de 2023.
"Essa definição nos parece convergir com os conceitos trabalhos no e-book (a saber, resistência, ressignificação discursiva e revascularização discursiva), uma vez que todos eles têm como premissa as relações de poder que estabelecem assimetria nas relações; dessa forma, pensar o discurso de ódio, aliado aos conceitos mobilizados na obra, é pensar essas estratégias, hostis, de opressão de pessoas e grupos - acrescentaríamos nós - já marginalizados sócio-historicamente. O discurso de ódio afeta, então, não quaisquer pessoas ou quaisquer grupos de quaisquer maneiras, mas afeta de maneira significativa aqueles que já vivem nas condições deploráveis permitidas e fomentadas pelos grupos dominantes", explica Damasceno.
Principais temas que aparecem na obra
"Talvez seja interessante nós agruparmos os temas tratados em quatro grandes frentes temáticas, quais sejam: opressão; ciência; sociedade; e comunicação", elenca Damasceno.
Na frente temática relativa às opressões, que concentra o maior número de capítulos, são abordados diferentes eixos de discriminação que constituem o funcionamento da nossa sociedade. Assim, temos capítulos sobre gênero (transfobia, misoginia, preconceito (socio-)linguístico, sexismo, luta antimanicomial e violência obstétrica); raça (racismo e intolerância religiosa); e diversidade funcional (autismo e surdez).
Já na frente temática sobre ciência, há artigos que abordam interseccionalidade e interdisciplinaridade. A terceira frente, sobre sociedade, abriga capítulos sobre discurso punitivista; liberdade de expressão; e sustentabilidade. O último grande grupo que poderíamos formar com fins didáticos, o de comunicação, abriga capítulos relacionados à cultura pop internacional e memes.
Aciepe
A Aciepe "Análise de discurso, ensino e discursos de ódio: resistência, ressignificação e revascularização discursiva", que deu origem ao livro, teve 13 encontros semanais, realizados entre março e julho de 2025, remotamente, via Google Meet, com transmissão ao vivo pelo YouTube. Todas as aulas estão reunidas na nesta playlist (https://bit.ly/4z277vC) e contam com o serviço de interpretação em Libras ofertado pela Coordenadoria de Serviço de Tradução e Interpretação de Língua de Sinais (CoSeTILS) da UFSCar.
Entre os participantes da Aciepe e, por extensão, pessoas autoras do e-book, estão desde jovens cientistas (discentes de graduação, tanto da área de Letras/Linguística quanto de outras áreas, como Computação, História, Direito e Análise Ambiental, da UFSCar e de outras universidades), pós-graduandos de todos os níveis, além de docentes e professores da rede pública de ensino, do Estado de São Paulo predominantemente, mas também de outras regiões do Brasil.
Organização em grupoDamasceno conta, a seguir, como foi mobilizar o grupo participante da Aciepe para a construção do e-book:
"Trabalhar em um projeto coletivo e científico é sempre desafiador porque exige não somente o manejo de diferentes realidades, produções discursivas e rotinas, mas, sobretudo, porque é um momento e também um movimento centrípeto mesmo, de atração de diferentes corpos para um centro em comum - considerando também especialmente as consequências advindas disso, de aglutinação do diferente, que são, por natureza, inesperadas. Não se sabe se vai ser um grupo super comunicador ou super distante; se vai ser um grupo fortemente interessado pelo tema ou apático; se vão propor novos desdobramentos ou sequer vão atender às propostas de atividade… Enfim, trabalhar com o coletivo é trabalhar com o inesperado, ou melhor, com o diverso, e, felizmente e como geralmente acontece nos trabalhamos que desenvolvemos juntos, com essa turma participante da Aciepe e com esse grupo de pessoas autoras do e-book, nós, professor Roberto Baronas e eu, estabelecemos uma relação muito afetuosa, de trocas constantes e aprendizagens, que possibilitou que as aulas fossem não somente encontros síncronos e que a organização da obra não fosse apenas uma troca mecânica e burocrática de informações; esses momentos geraram, no conjunto, uma nova rede de afeto, que esperamos que seja duradoura", pontua Damasceno.
"Quando propomos esse tipo de atividade (coletiva e, nesse caso, aberta à comunidade externa da UFSCar), é comum que se borbulhe ideias, perspectivas e abordagens que não foram previstas no planejamento da atividade; não por suposta incapacidade em planejar uma atividade e não somente porque se trata, de fato, de um ambiente aberto à construção de conhecimento de maneira horizontal, mas, acima disso, porque é o encontro dos dissensos ali confrontados que produz aquilo que é a nossa preciosidade: as novas formas de se abordar os discursos de ódio, sobretudo em sala de aula. Nesse sentido, compartilhar as discussões levantadas durante o curso não poderia ser parte irrelevante da própria construção dessa Aciepe. Resumidamente, então, eu diria: ferver a água do café, pra nós, significa servir um bolinho também".
A obra conta com o apoio, na UFSCar, do Laboratório de Estudos Epistemológicos e de Discursividades Multimodais (LEEDiM), do PPGL, do DL e da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx), além da Capes e do CNPq.
Contato para esta matéria:
Denise Britto Telefone: (16) 997077241
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