2026-06-29 10:29:15.0
Obra resgata contos de estudantes de Direito da USP no século XIX
Coletânea retrata a rotina da vida estudantil em São Paulo
Às vésperas da celebração dos 200 anos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), importante reduto formador da intelectualidade brasileira, foi lançada a publicação "Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos (1848-1865)", reunindo treze contos acadêmicos pouco conhecidos, escritos por estudantes de direito em São Paulo, no século XIX. A obra pode ser adquirida no site da Edusp (https://bit.ly/4eKgjfF).
"Os textos foram publicados majoritariamente em periódicos de alunos e permitem apurar o cotidiano e o imaginário desses estudantes no Brasil imperial", destaca a professora Natália Gonçalves de Souza Santos, do Departamento de Letras (DL) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), autora da coletânea.
Temas
Os contos, segundo a autora, "procuram retratar a vida estudantil na São Paulo de meados do século XIX, ainda muito longe da metrópole que conhecemos hoje. Naquele contexto, os estudantes formavam um grupo à parte, envolvidos com os estudos e outras atividades muito diferentes da população em geral. Dessa maneira, entrevemos os seus hábitos de lazer, os longos períodos de ócio passados em animadas conversas nas repúblicas, passeios nos entornos da cidade, que contava com rios límpidos e natureza esplendorosa, namoros. Eles também são responsáveis pelas primeiras representações da Pauliceia noturna, espaço pelo qual apenas jovens entusiasmados mais de fantasias que de conhaque ousavam percorrer. Mas, sobretudo, os contos discutem literatura, por isso são metaliterários. Isso aponta para o quanto essa arte é fundamental na construção da subjetividade humana", analisa a professora.
Vinho, conhaque ou... café?
Entre os aspectos que chamaram a atenção da pesquisadora da UFSCar é o contraste entre a literatura de Álvares de Azevedo, autor mais conhecido da segunda geração romântica, frequentemente associado à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e as narrativas dos estudantes na mesma época. "Em ‘Macário’ (1855), espécie de peça de teatro na qual o protagonista vai à escola, e em ‘Noite na taverna’ (1855), conjunto de novelas que poderiam ilustrar o processo de escolarização pelo qual ele passa, temos muita bebida, vinho, conhaque, e orgias… Já nessas narrativas da vida mais cotidiana nas repúblicas, o que se bebe mesmo é café, bom e velho amigo do estudante brasileiro. E, não raro, a cena enfoca apenas interações entre os acadêmicos, sem os excessos das narrativas alvaresianas".
Melancolia e sátira
Os contos apresentam elementos do romantismo byroniano - referência ao célebre autor inglês Lord Byron (1788-1824) -, que se contrastavam ao dia a dia entediante em uma cidade com poucas opções de lazer. "Pode-se identificar algumas vertentes dentro dessa rubrica, como, por exemplo, uma produção literária mais sombria e melancólica, que talvez seja a mais conhecida, principalmente fora da Inglaterra, e que muito circulou no Brasil oitocentista", afirma a docente. "Ela dá vazão a uma espécie de crise existencial vivenciada por uma sociedade que se alterava drasticamente, passando das maneiras mais tradicionais que explicavam e definiam nossa condição no mundo às mais modernas, que indicavam o desconhecido, a transitoriedade. Daí a ideia da dúvida, chamado então de ceticismo, quase sinônimo de byronismo. Mas também temos o Byron que escolhe satirizar tudo isso, em vez de angustiar-se. Essa vertente também encontrou lastro no Brasil e faz todo sentido grassar num meio estudantil, já inclinado ao riso. Por isso, muitas narrativas da coletânea têm caráter cômico".
Pesquisa, coleta e organização
A professora relata que boa parte desse material se encontra disponível na Hemeroteca Digital Brasileira, portal online e gratuito da Fundação Biblioteca Nacional, que disponibiliza jornais, revistas e outras publicações do acervo da instituição. Alguns títulos também foram consultados de forma presencial em São Paulo - no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP, na Faculdade de Direito da USP e na Biblioteca Mário de Andrade - e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Para selecionar e organizar os contos, a docente teve como foco "acompanhar esse estágio de transição pelo qual passavam os jovens acadêmicos, ainda aprendizes do poder, mas já exercendo aqui e ali o mando patriarcal e escravocrata, nuançado pelo manto do riso. Então, propõe-se um percurso que segue a sua estadia em São Paulo, a partir do modus operandi estudantil".
Contos selecionados
Os três primeiros títulos da coletânea têm por base a temática do deslocamento, a viagem, a chegada à nova cidade, com todos os percalços e inconvenientes que isso pode implicar. Os próximos figuram indivíduos que parecem ter deixado o status de calouro para trás, circulando com familiaridade pelos círculos boêmios, discutindo literatura e política à roda da mesa do jantar, detalha Santos. "É em meio a essa prosa, regada a café e tabaco, na qual podem emergir não apenas os debates do momento, mas o passado da Academia e seu anedotário e os casos mais insólitos. Mas nem só de conversas noturnas entre quatro paredes vivem os futuros bacharéis, os entornos da cidade e seus encantos podem ser vistos numa sequência de dois contos".
"Os dois textos que encerram a coletânea sinalizam igualmente o final dessa condição intervalar do estudante e a perspectiva da formatura, que traz consigo a vida real, que significou, em larga medida, o término do exercício literário, incompatível com uma profissão séria. O primeiro é marcado pela perspectiva do casamento. Já o último coloca em xeque a possibilidade de se levar da Faculdade de Direito algo mais que a carta de bacharel e a formação dos laços políticos", explica a professora da UFSCar.
Sobre a autora
Natália Gonçalves de Souza Santos é professora de Literatura na UFSCar. Mestra e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. É autora de "Um Leitor Inconformado: Álvares de Azevedo e a Literatura Comparada" (Edusp, 2022) e "Antagonismo e Dissolução: O Pensamento Crítico de Álvares de Azevedo" (Humanitas/Fapesp, 2014), respectivamente oriundos de suas investigações de doutorado e mestrado. Na presente obra, dá seguimento ao seu interesse pelo romantismo brasileiro. A pesquisa que deu origem à coletânea contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Contato para esta matéria:
Denise Britto Telefone: (16) 997977241
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