2026-05-21 10:49:55.0
Estudo da UFSCar discute papel da escola na formação alimentar infantil
Pesquisa do Departamento de Educação analisa alimentação escolar, inclusão e desafios do PNAE no ambiente escolar
A alimentação escolar vai além da oferta de refeições. Também envolve aspectos educativos, sociais e afetivos, capazes de influenciar a relação das crianças com os alimentos ao longo da vida. Esse é o ponto de partida da monografia "Desenvolvimento de hábitos alimentares na infância: o papel da escola na promoção de uma alimentação saudável", desenvolvida por Marisa Paula Nascimento no curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação de Giselle Modé Magalhães, docente do Departamento de Educação (DEd) da Instituição.
O estudo analisa como a escola participa da construção de hábitos alimentares saudáveis na infância e discute os limites e as possibilidades de implementação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no cotidiano das instituições públicas de ensino.
O interesse pelo tema surgiu a partir de uma experiência pessoal vivida pela pesquisadora. Seu filho foi diagnosticado ainda bebê com Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), condição que trouxe desafios no processo de inserção escolar. "Embora a legislação brasileira preveja e garanta uma alimentação diferenciada para crianças com necessidades alimentares especiais, a prática nos mostrou que a existência da lei, por si só, não assegura a permanência e o bem-estar da criança no ambiente escolar", relata.
Segundo Nascimento, o filho sofreu reações alérgicas relacionadas à contaminação cruzada em tentativas de adaptação na rede pública de ensino. "Sentir na pele essa barreira invisível me despertou um profundo interesse em pesquisar a fundo o tema. Eu precisava entender como o ambiente escolar se organiza - ou falha em se organizar - para acolher essas singularidades", afirma.
Com base em revisão bibliográfica de 26 publicações acadêmicas, o estudo dialoga com conceitos da teoria histórico-cultural de Lev Vygotsky para compreender como a alimentação também é aprendida nas interações sociais.
"Vygotsky defendia que nós não aprendemos nem nos desenvolvemos sozinhos, isolados. Nós aprendemos através da interação com o outro e com a cultura em que vivemos", explica Nascimento. Segundo a pesquisadora, a alimentação infantil também integra esse processo de aprendizagem, influenciado pelas relações construídas no ambiente escolar.
"No contexto da minha pesquisa, entender a mediação na alimentação infantil significa perceber que o papel do educador na hora do almoço ou do lanche é tão pedagógico e vital para o desenvolvimento da criança quanto a hora de ensinar as letras ou os números", complementa. "É ali que se constroem hábitos, segurança emocional e inclusão."
A monografia também destaca o papel da afetividade nas práticas alimentares. Atitudes simples, como professores compartilharem a refeição com a turma, incentivarem a experimentação de alimentos ou promoverem atividades lúdicas relacionadas à alimentação, podem aumentar a aceitação dos cardápios escolares e fortalecer experiências positivas em torno da comida.
Outro ponto abordado é a inclusão de estudantes com restrições alimentares, como casos de APLV. Embora exista legislação que garanta cardápios adaptados, a pesquisa aponta dificuldades relacionadas à infraestrutura, capacitação profissional e organização das práticas alimentares.
"O grande nó cego está no que acontece no dia a dia da cozinha e do refeitório", avalia a pesquisadora. Segundo ela, muitas escolas não possuem estrutura adequada para evitar contaminação cruzada. "A lei oferece o alimento, mas a estrutura da escola pública não garante a segurança."
O estudo também problematiza estratégias que acabam isolando crianças com restrições alimentares diante do medo de uma reação alérgica, fazendo-as comer em outra mesa, na sala de aula ou em horários separados. "Sob a ótica de Vygotsky, isso é o oposto de inclusão. Ao isolar o estudante para protegê-lo fisicamente, a escola nega a ele a mediação social, o convívio com os pares e a oportunidade de vivenciar a cultura alimentar de forma saudável", aponta.
Além das limitações estruturais, a monografia discute a necessidade de formação continuada para professores, equipes de apoio e profissionais das cozinhas escolares. Para a autora, o momento da alimentação precisa ser compreendido como parte do processo pedagógico.
"Precisamos parar de enxergar a hora da merenda como um momento de pausa ou um ato puramente biológico", defende. Entre as propostas apontadas pela pesquisa estão a criação de protocolos de segurança alimentar, atividades pedagógicas relacionadas à alimentação, hortas escolares e oficinas de culinária inclusiva.
Ao refletir sobre a alimentação escolar como experiência de aprendizagem, convivência e pertencimento, Nascimento ressalta que o cuidado com a alimentação infantil também envolve acolhimento, interação social e construção de vínculos. "Educar o paladar é compreender que, entre o brilho da colher e a textura do prato, tecem-se fios de cultura tão vitais quanto os traçados do lápis no papel. Nutrir a infância em sua diversidade é permitir que cada criança floresça em seu lugar à mesa, onde o pertencer tem sabor de segurança e o acolhimento é a mais pura forma de dignidade", conclui a pesquisadora.
Contato para esta matéria:
Adriana Arruda Telefone: (16) 33518478
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