2026-05-05 16:37:46.0

Ansiedade matemática: pesquisadores da UFSCar desenvolvem programa para lidar com um desafio global

Grupo de pesquisa em Psicologia investiga as origens, impactos e ferramentas para enfrentar o fenômeno

Por Vanessa Ayres Pereira*

Em 6 de maio o Brasil celebra o Dia da Matemática, mas os dados convidam mais à reflexão do que à festa. O Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa) 2022 revelou que o Brasil teve desempenho abaixo da média da OCDE na disciplina, ficando em 65º lugar entre 81 países avaliados. Por trás do número, há um fenômeno de raízes psicológicas e culturais, para o qual pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE), com sede na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), investigam soluções. Uma delas é o Programa de Auxílio ao Estudante com Ansiedade Matemática (PAEM).

A ansiedade matemática envolve um conjunto de reações fisiológicas, cognitivas e comportamentais, moldadas pela história de aprendizagem de cada indivíduo e que se manifesta diante de qualquer coisa que lembre a disciplina. Por exemplo, dor no estômago, mãos geladas, choro, ter um "branco" durante o exame e o evitamento sistemático de situações envolvendo cálculos. 

Além do sofrimento e do prejuízo escolar, o quadro pode trazer consequências que extrapolam a sala de aula. Por exemplo, para a cidadania - da gestão financeira à leitura crítica de dados - e para o desenvolvimento tecnológico. Isso é o que aponta um estudo publicado em 2017 na Current Directions in Psychological Science, por pesquisadores norte-americanos e franceses: quando estudantes ansiosos migram para carreiras menos quantitativas, há um impacto individual, ao limitar o potencial profissional, e outro coletivo, ao comprometer o sucesso na formação de engenheiros, cientistas e analistas de dados.

Um programa para mitigar o quadro
Apesar da prevalência e dos impactos, um estudo publicado pelo grupo da UFSCar em 2024, no Bolema: Boletim de Educação Matemática, revelou que intervenções empiricamente validadas para mitigar o problema ainda são raras no Brasil. É nessa lacuna que o PAEM atua. "O programa é aplicado em estudantes do Ciclo II do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, mas estamos testando também na pós-graduação", explica João dos Santos Carmo, docente do Departamento de Psicologia (DPsi) da UFSCar e coordenador da iniciativa.

O programa é conduzido por estagiários do curso de Psicologia em escolas de São Carlos (SP). Primeiro, eles medem o nível de ansiedade matemática dos estudantes, utilizando um questionário validado e o registro de tudo o que vem a mente deles ao ouvir o nome da disciplina. Estudantes com níveis altos ou extremos são então convidados a participar da intervenção. "Em uma amostra de 50 estudantes, encontramos em média cinco com ansiedade extrema e sete com ansiedade alta", estima Carmo.

Na sequência, professores recebem os resultados e orientações para evitar situações ansiogênicas em aula. Os pais também são instruídos a observar e registrar comportamentos em casa e incentivar o estudo. A intervenção é finalmente conduzida por meio de encontros semanais, ao longo de dois semestres, com o objetivo de promover habilidades adequadas de estudo e autorregulação emocional. Cada estudante recebe uma intervenção planejada de acordo com suas necessidades.

Carmo e Marcelo Henrique Oliveira Henklain, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), contam no livro "Ensinar e aprender: desafios para a educação do século XXI" que os resultados são promissores. Além da redução da ansiedade, há evidências de ganhos na relação entre pais e filhos e generalização dos comportamentos para outras disciplinas. "Os pais relatam que o estudante começou a se organizar melhor. E temos depoimentos de alunos que tiraram nota alta pela primeira vez", diz Carmo. O programa atende prioritariamente escolas públicas e interessados podem contatar o professor diretamente pelo e-mail jcarmo@ufscar.br. 

Carmo ressalta, porém, que apesar de ser aplicado e aperfeiçoado há cerca de 15 anos, a validação científica formal do programa ainda está em construção - os dados acumulados permaneceram restritos por questões de privacidade ligadas ao estágio. O primeiro estudo publicado, de 2016, sugeriu eficácia em um caso individual. Uma dissertação mais recente, com estudantes do sexto ano, produziu resultados favoráveis, mas o artigo ainda está em processo de revisão por pares. Desde a pandemia de Covid-19, colaborações com pesquisadores do Reino Unido têm contribuído para aperfeiçoar o protocolo, e uma nova pesquisa incorporando essas modificações foi submetida para aprovação do Comitê de Ética.

Transmissão entre gerações
Segundo os pesquisadores, é importante lembrar que prevenir a ansiedade matemática é tão urgente quanto tratá-la. Certas práticas pedagógicas recorrentes podem funcionar como microagressões que contribuem para o fenômeno. Ainda que sem má intenção, atitudes como chamar à lousa quem demonstra dificuldade, dividir turmas entre "os mais e os menos inteligentes" ou naturalizar afirmações como "a disciplina é muito difícil" e "apenas para gênios ou meninos" podem expor, humilhar e desmotivar, alimentando um ciclo geracional.

Uma revisão publicada pelo grupo em 2023, na Cadernos de Pesquisa, reforça esse caráter: a relação de pais, professores e outros agentes sociais com a matemática - incluindo seus próprios níveis de ansiedade - é fator de risco para crianças, além do nível econômico e de escolaridade da família.

*Vanessa Ayres Pereira é Ph.D. em Análise do Comportamento e bolsista de Jornalismo Científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE).

anexos:

(Foto: Yan Krukau/Pexels)
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