2026-06-30 11:13:08.0

Aspergilose é tema de pesquisa da UFSCar com instituição de Macau

Doença transmitida por fungo pode ser fatal para pessoas imunossuprimidas

Em resposta à percepção de que as doenças provocadas por fungos não recebem a devida atenção, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou, em 2022, o documento orientador "Lista da OMS de patógenos fúngicos prioritários", no qual um destaque é o Aspergillus fumigatus. Ele é uma das cerca de 300 espécies do gênero Aspergillus, das quais aproximadamente 20 causam doenças - aspergiloses - em seres humanos. A espécie é um dos objetos de estudo de Iran Malavazi, professor no Departamento de Genética e Evolução da UFSCar. "Dos casos de todas as aspergiloses, 90% são causadas por esse fungo, Aspergillus fumigatus", situa o pesquisador.

Em fevereiro deste ano, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou os projetos selecionados em uma chamada realizada em parceria com o Fundo para o Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia (FDCT) de Macau, China. Na lista, estava Malavazi, com a pesquisa "Mapeamento funcional genômico da via CWI visando a identificação de alvos dependentes e independentes de PkcA no patógeno fúngico humano Aspergillus fumigatus". "Eu estudo, do ponto de vista molecular, as espécies fúngicas, para entender fragilidades nos organismos", explica Malavazi. O foco é justamente o enfrentamento a doenças: encontrar alvos nos fungos para a atuação de novos fármacos. 

A aspergilose é uma doença infecciosa oportunista que surge quando o fungo do gênero Aspergillus entra no organismo humano por meio da inalação de esporos por indivíduos com imunidade reduzida. "Estima-se que nós inalemos cerca de cem conídios [esporos] desse fungo por dia, porque eles estão no nosso ambiente, e não ficamos doentes porque o nosso sistema imune dá conta de deflagrar, de limpar essa infecção", explica Malavazi. "Na pessoa imunossuprimida, isso não acontece. E a taxa de mortalidade da aspergilose pulmonar invasiva, que é a doença mais letal dentre as aspergiloses, pode chegar a 90%, se o diagnóstico não for feito corretamente e demorar para entrar com o tratamento", complementa.

O fungo é encontrado em matéria orgânica em decomposição dispersa no ambiente, e não existe transmissão entre humanos ou entre animais e humanos. Os sintomas mais comuns são tosse persistente com presença de catarro ou sangue, dificuldade ao respirar, dor no peito, febre acima de 38°C e perda de peso. Segundo a OMS, a resistência dos fungos aos tratamentos disponíveis está aumentando, especialmente pelo uso generalizado do antifúngico azol como fungicida em lavouras.

Neste projeto específico, Malavazi investigará um mecanismo de sinalização celular. Quando há um estímulo externo, proteínas da célula convertem o sinal para dentro dela (no processo chamado de transdução), o que permite que a célula reaja para tentar sobreviver. "Todo organismo sofre estresse, incluindo os fungos", explica o pesquisador da UFSCar. "Quando a célula fúngica entra no corpo humano, ela tem de lidar com radicais livres, espécies reativas de oxigênio, temperatura mais alta, moléculas que o sistema imune do hospedeiro vai gerar… Então, é uma guerra química", descreve. Malavazi explica que o Aspergillus fumigatus é muito bem adaptado para produzir parede celular em situações de estresse, "pegar diferentes açúcares e montar em uma parede que fica localizada na superfície da célula", e que o objeto da pesquisa é precisamente a via de sinalização CWI (sigla de cell-wall integrity, integridade da parede celular, em Inglês), que, dentre outras coisas, estimula a produção de parede celular.

A pesquisa fará dois grandes grupos de teste. Um deles buscará entender o comportamento da célula no nível transcricional - quais genes estão sendo expressos pelo RNA mensageiro - quando a via de sinalização CWI está funcionando e quando não está. O outro grupo será semelhante, mas focado em proteínas que possam ou não aparecer conforme a via de sinalização esteja ou não funcionando.

Além de Malavazi, participam da pesquisa dois pesquisadores de pós-doutorado e um estudante de graduação da UFSCar, além de parceiros da Universidade de São Paulo e o grupo de Macau.

Neste momento, está aberta nova chamada de propostas para colaboração entre cientistas com vínculo com instituições paulistas e colegas de Macau. Projetos podem ser submetidos até o dia 21 de julho, contemplando uma ou mais das seguintes áreas definidas como prioritárias: Biotecnologia; Biodiversidade; Produção Alimentar Sustentável e Segurança Alimentar; Transição Energética; Transição Digital; Inteligência Artificial; Tecnologia Quântica; Tecnologia dos Oceanos; Tecnologia Espacial; Saúde Humana e Animal; e Segurança Pública. O edital pode ser conferido no site da Fapesp.
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